Atos em prol do respeito às diferentes crenças religiosas movimentam o Rio

A solidariedade rompe fronteiras: dois atos simbólicos aconteceram essa semana e pontuam para uma nova era, onde religiosos se unem em prol de uma mesma causa, respeito às diferentes crenças religiosas.

kleber com Ivanir

Na última terça-feira (12/12), no IFCS, no Centro, o pastor e cantor Kleber Lucas, recebeu uma gama de apoio e solidariedade. O pastor tem sido duramente agredido nas redes sociais e nos meios racistas e intolerantes, por ter participado de uma cerimônia pela liberdade religiosa. O evento aconteceu no dia 22 de novembro, no terreiro de candomblé da mãe de santo Conceição d`Lissá, na Baixada Fluminense.

A ação primeira, partiu da pastora luterana Lusmarina Campos Garcia, que sugeriu a Ivanir dos Santos, uma doação reparadora. E um café da manhã reuniu diversas lideranças religiosas em Duque de Caxias, o encontro fraternal contou com presença e voz de Kleber Lucas, e esse gesto amistoso provocou diversas discussões.

Em respeito, um ato foi organizado em repúdio aos equívocos que vem sofrendo. E grandes lideranças religiosas marcaram presença lotando o salão nobre da faculdade.

Kleber contou sua trajetória humilde, criado em favela, com pai devoto a São Jorge. E mesmo com uma infância pobre, ressaltou que recebeu em diversas fases a ajuda de religiosos de matriz africana, assim como, de evangélicos, onde muito se orgulha de ter vivido isso. Hoje, músico e pastor há 25 anos, tem a certeza que agiu certo.

Ato no IFCS -kleber com diversos religiosos - Cópia

A homenagem foi regada com muita emoção e Kleber diversas vezes não se conteve e chorou. “É muito bom ter esse acolhimento de vocês, esse momento só irá me fortalecer”, atestou Kleber. O Babalawô e interlocutor da CCIR – Ivanir dos Santos, foi parabenizado em muitos momentos por amigos e parceiros de luta. “Esse ato surgiu por isso, vc não está só, seu gesto foi verdadeiramente religioso”, afirmou e logo em seguida de um forte abraço em kleber, aliás, abraços foi o que não faltou.

O Bispo Marcelo Rosa, contou que conhece há muito tempo kleber e também enalteceu a atitude do amigo e deu seu recado “O que me assunta muito mais, é essa construção ideológica preconceituosa…. Você é um exemplo´”, bradou o religioso que é tambémSubsecretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial de São João de Meriti.

O engenheiro Sérgio Niskier, também manifestou seu carinho. “A Diversidade é um presente de Deus”. A mulher Danielle Favatto, visivelmente emocionada, chorou em vários momentos, ficou na plateia recebendo o apoio de um grupo da Igreja Batista Soul, na Barra, onde Kleber prega.

“Nós vamos ser atacados, mas vamos seguir contra à Intolerância Religiosa”, sentenciou a pastora Lusmarina Garcia. “Cabe a nós umbandistas, candomblecistas, católicos e outros, lhe reverenciar, o Senhor foi uma voz que se levantou em nome da generosidade… O Senhor me representa”, afirmou Mãe Mara de Yemanjá.

Foi lido ainda uma carta do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. “É surpreendente que a solidariedade, ao invés de nos sensibilizar e mobilizar para o fortalecimento do amor ao próximo, princípio do Evangelho, gere atitudes de ódio. Os ataques recentes sofridos por terreiros, tanto no RJ quanto em outros estados brasileiros, deveriam gerar reflexão profunda”

E muitos outros, foram catalisar esse sentimento de apoio e carinho, como Conceição d`Lissá, Frei Tatá, Marilena Mattos (Muda), representante do CONIC-Rio, o Pastor Carlos Borel, Reverendo Edson Fernando de Almeida (Igreja Cristã de Ipanema), Pastor Neil Barreto, líderes pentecostais e neopentecostais, prof. e pesquisador André Leonardo Chevitarese (LHER/UFRJ) e escritora Helena Theodoro, citando alguns.

Outro momento foi em Campo Grande, onde realizou a 1ª Caminhada pela Liberdade Religiosa, na Zona Oeste, no sábado.

 1ª Caminhada da Zona Oeste - foto 7

Um ato legítimo, onde o respeito e a liberdade religiosa caminharam lado a lado. Campo Grande reuniu um expressivo grupo de religiosos para a  Caminhada pela Liberdade Religiosa da Zona Oeste do Rio.

Realizado pelo coletivo Tudo Numa Coisa Só, que tem como meta criar ações práticas para a melhoria da sociedade, começando pela região onde moram – os bairros da Zona Oeste. E com o apoio de diversas organizações e comunidades religiosas, como CEAP, CCIR, Rede Agen Afro, Cebi-RJ (Centro de Estudos Bíblicos do RJ), entre outros, recebeu em torno de 500 pessoas.

A Zona Oeste, configura com os maiores casos sofridos de agressão e profanação aos espaços religiosos de matriz africana, os casos aumentaram assustadoramente nos dois últimos anos.

“Esse é um momento especial no Rio, estamos diante de muita intolerância, por isso, estamos na rua, pedindo respeito à diversidade”, atestou Ivanir do Santos – interlocutor da CCIR –Comissão de Combate à intolerância Religiosa, que vem  anos chamando à razão da sociedade para a falta de respeito sofridos pelas religiões de matrizes africanas.

Foi um dia de todos os santos, crenças e muita fé. Onde simpatizantes, jovens, crianças, sacerdotes de umbanda e candomblé, mórmons, diversas frentes evangélicas, como GAE Missões, em grupo, acompanhando o Pastor Vitor Louredo, que afirmou: “Esse movimento de ódio, não representa os evangélicos, estamos aqui a favor de um Estado laico”. O Bispo Marcelo Rosa, assim como, o Padre Paulinho da Igreja Nossa Senhora do Desterro, estavam também presentes.

A concentração começou às 9h, na Praça Francisco Barbosa, abriu com uma enorme ciranda de roda, seguindo com cantos ecumênicos e apresentação do grupo APAACABE Capoeira, com o Mestre Batata, que comandou a capoeira e dança de maracatu. A Caminhada seguiu por 400m e parou nos jardins da Igreja N. S. do Desterro, e diversos seguimentos culturais como Afoxé Omo Ifá, Grupo Musical Cebi, Mariama, entre outros, que deram seu recado. Além de cantorias que relembraram Clara Nunes e Gonzaguinha, apresentação ainda de Ogans com o prof. Jorge Coelho, que mostrou diversas formas batuque. Por volta das 15h, encerou com o grupo Maracatu Mulher.

A avaliação dos coordenadores foi satisfatória, alegou Lindalva Cabral, e todos estavam ali, juntos, em prol do Respeito, das Igualdades, da Tolerância, das Humanidades.

​Fotos de Rozangela Silva

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