Refugiados concluem formação em empreendedorismo e apresentam negócios no Rio

Cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Boa Vista ajudaram a fazer de 2017 um ano marcado por ações e projetos de valorização da cultura das pessoas em situação de refúgio e de integração dessa população com os brasileiros.

No Rio, um grupo de empreendedores de Angola, Colômbia, Nigéria, República Democrática do Congo, Síria e Venezuela já transformou esse intercâmbio cultural em uma forma de gerar renda para suas famílias e apresentar um pouco de seus países à população local. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Parte da turma de formados no CORES com seus diplomas. Foto: ACNUR/Diogo Felix.

Cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Boa Vista ajudaram a fazer de 2017 um ano marcado por ações e projetos de valorização da cultura das pessoas em situação de refúgio e de integração dessa população com os brasileiros.

No Rio, um grupo de empreendedores de Angola, Colômbia, Nigéria, República Democrática do Congo, Síria e Venezuela já transformou esse intercâmbio cultural em uma forma de gerar renda para suas famílias e apresentar um pouco de seus países à população local.

Eles se formaram após quase 150 horas de aulas oferecidas pelo projeto Coletivos de Refugiados Empreendedores (CORES), uma iniciativa inédita desenvolvida pela Cáritas do Rio de Janeiro para impulsionar negócios em um momento de maior dificuldade de absorção de refugiados pelo mercado de trabalho formal.

Implementado este ano como piloto, o projeto capacitou profissionais com talento e experiência em duas áreas distintas: costura e gastronomia.

Dos 20 participantes que iniciaram a formação, todos receberam o conteúdo básico de empreendedorismo do SEBRAE, um dos parceiros do projeto, mas foram nove os que concluíram os três módulos do programa.

Em novembro, após seis meses de aprendizado teórico e prático, foi realizado um evento no Nex Coworking, residência de diversas empresas de economia criativa, para apresentar ao público os negócios criados ou desenvolvidos ao longo da formação.

Os brasileiros presentes na ocasião puderam apreciar quitutes culinários da Nigéria, da Colômbia e do Líbano. Neste último caso, os produtos eram oferecidos por Maria El Warrak, refugiada venezuelana que decidiu utilizar os segredos da gastronomia árabe, aprendidos com a mãe libanesa, para ganhar a vida no Rio de Janeiro, aonde chegou há cerca de dois anos. O negócio é tocado com o marido, José Alvarado, que conta já estar colocando em prática o que aprendeu no CORES.

“O aprendizado foi excepcional. Nas aulas sobre empreendedorismo, conhecemos ferramentas administrativas e econômicas para o nosso negócio e aprendemos como reforçar as parcerias e chegar a novos clientes. Na área de gastronomia, tivemos oficinas de segurança para produção de alimentos, elaboração de ficha técnica nutricional e marketing, ferramentas que agora utilizamos no nosso cotidiano”, detalha o venezuelano.

Os planos de crescimento, também já em prática, incluem a venda de produtos em plataformas on-line e serviço de buffet. “O que queremos é oferecer uma autêntica mesa árabe, com diversos produtos, para que as pessoas sintam que estão curtindo uma refeição original e completa”, explica, orgulhoso.

Negócio social com as cores da África

Mulheres do Sul Global arrumam as roupas produzidas ao longo da formação. Foto: ACNUR/Diogo Felix.

Enquanto os participantes da turma de gastronomia, como José, entraram no projeto almejando aprimorar negócios que já haviam criado, entre as costureiras a realidade e o resultado foram bastante diferentes. Formado por congolesas e angolanas que traziam de seus países conhecimentos de costura e tecidos africanos originais, o grupo descobriu sua força não em projetos individuais, mas na ação conjunta.

Ao longo da formação, elas se organizaram em um coletivo de costureiras sob a orientação da brasileira Emanuela Pinheiro, que atuou como tutora voluntária nas aulas específicas de costura e apresentou uma ideia de negócio social às refugiadas a partir de uma proposta gestada no programa Shell Iniciativa Jovem, de aceleração de startups.

“Essas mulheres queriam trabalhar como costureiras aqui, mas muitas tinham sido reprovadas em testes de fábricas no Brasil por nunca terem operado uma máquina industrial e, assim, acabavam conseguindo apenas vagas de faxineiras”, conta Emanuela. “O projeto nasce, então, com a missão de empoderá-las nessa reconstrução, que incluía o aperfeiçoamento das técnicas, o acesso às máquinas de costura, a busca por clientes e a construção de uma marca que tivesse a identidade delas”.

Sagrace Menga foi uma das quatro refugiadas que compraram a ideia. Assim como outras mulheres de seu país, a congolesa aprendeu a costurar na infância, dentro de casa. Embora seu aprendizado tenha sido incompleto e marcado por longos períodos de interrupção, ela retomou o ofício como um meio de sobrevivência quando chegou ao Brasil, mas costurando apenas para amigas e vizinhas.

“O acabamento das roupas das africanas e das brasileiras é muito diferente. Aqui no Brasil, o acabamento é muito importante para dar valor àquilo que você costurou”, reconhece Sagrace, demonstrando o conhecimento adquirido no CORES. “Aprendi muito, foi muito bom para mim!”

Ainda durante as aulas do CORES, Emanuela idealizou com as costureiras a primeira coleção do grupo: uma linha de produtos para chefs profissionais e amantes da cozinha, baseada em tecidos africanos originais. Foram confeccionados dólmãs, aventais, toucas, jogos americanos, caminhos de mesa, guardanapos de pano, entre outras peças. Lançada no evento de encerramento do CORES, a coleção marcou o ponto de partida do novo negócio, batizado de Mulheres do Sul Global.

“A venda desse primeiro material trará renda para as costureiras e fôlego para o negócio continuar desenvolvendo novas coleções e incluir mais mulheres refugiadas”, diz Emanuela, que já celebrou com suas pupilas a conquista de dois prêmios de inovação social e economia criativa: o primeiro lugar no prêmio Shell Iniciativa Jovem e o Desafio de Moda Sustentável do ColaborAmerica 2017.

“Tudo isso que está acontecendo é inédito para mim, é a primeira vez que faço algo útil, obras legais, que as pessoas apreciam e comentam”, celebra Sagrace. “Fiquei arrepiada de ver as pessoas comprando nossas peças no evento”.

Muito mais do que uma capacitação

Foto: ACNUR/Diogo Felix.

As vendas e os prêmios são evidências do sucesso da edição piloto do CORES, mas algumas conquistas igualmente importantes não são tão fáceis de se mensurar.

Ao longo do aprendizado, os participantes fortaleceram a autoestima e adquiriram habilidades sociais fundamentais para o sucesso no mercado empreendedor do Rio de Janeiro, como capacidade de comunicação, criatividade para enfrentar os desafios, comprometimento e pontualidade.

“É muito valioso para nós, da Cáritas, ver uma pessoa que chegou com uma identidade profissional destruída conseguir fortalecer esses aspectos”, avalia Nina Quiroga, coordenadora do CORES. “Para nós, não é importante saber apenas quem vendeu mais, mas quem passou a chegar na hora, a se comunicar bem, a trabalhar em equipe. Esses elementos comportamentais, que pareciam secundários no início, acabaram se tornando o carro-chefe do projeto como indicadores de resultado”.

Nesse sentido, Nina explica, o objetivo do CORES é servir como uma pré-incubação para negócios de refugiados empreendedores, sempre levando em conta a realidade subjetiva dessas pessoas e os desafios enfrentados por elas no novo país.

“A incubação tem parâmetros de resultados mais ligados à capacidade produtiva, ao passo que nós temos uma preocupação anterior, com a estruturação da vida das pessoas para que elas tenham condições de produzir”, esclarece a coordenadora, ressaltando ainda que o projeto prevê uma mentoria para pessoas que enfrentam mais dificuldades de inserção, e demanda uma atenção individualizada.

“Tornar-se empreendedor em um país diferente, em que ninguém conhece você, é muito difícil”, afirma José. “Se não tivéssemos esse tipo de apoio, teríamos que gastar muito dinheiro com consultores.”

Apoio que veio de diversos atores da sociedade civil. Para formar a primeira turma de refugiados empreendedores, o CORES contou com várias parcerias importantes, que, além do SEBRAE, do Nex Coworking e do Mulheres do Sul Global, incluíram ainda Instituto Rio Moda, Obra Social das Irmãs Cabrini, Ateliê Tereza Vitturiano, CEFET/Maracanã e profissionais voluntários.

“O trabalho com parceiros está no cerne do projeto”, explica Nina. “Eles são fundamentais para que o projeto ganhe capilaridade e os refugiados acessem uma rede ampliada de contatos profissionais, ou seja, que ao fim do projeto, tenham na bagagem não apenas uma capacitação, mas caminhos abertos para tocarem seus negócios.”

Já de olho em 2018, a Cáritas RJ busca parcerias para o financiamento e a estruturação de uma nova edição do CORES. O plano inicial da instituição é oferecer capacitação para homens e mulheres que tenham experiência na área de estética de cabelos, o que é comum entre os refugiados, sobretudo os africanos.

“Não podemos parar. A necessidade de geração de renda do refugiado é imediata, e isso precisa ser feito de forma qualificada e sustentável. Além disso, seria uma pena não reconhecer os múltiplos talentos e contribuições que eles trazem. Embora esses potenciais estejam sendo pouco absorvidos pelo mercado formal, felizmente temos uma população de consumidores cariocas curiosa e generosa. Vamos em frente”, conclui Nina.

Fonte: ONU

 

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