Balanço de culturas

Ângelo Cavalcante*
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Não seria má ideia se governos apresentassem um balanço das ações desenvolvidas no ano que passou! Não estou me referindo a apenas obras e inaugurações disto e daquilo. Estou propondo ousadia, atrevimento… Algo mais amplo e complexo! É que seria muito bom se fossem apresentadas obras culturais ou um balanço de culturas desenvolvidas para toda a sociedade.
Isso mesmo! Estou falando da alteração de comportamentos desta ou daquela comunidade; que governanças demostrem que, por meio de suas políticas e administrações, comportamentos, logo o imaginário social e individual, foram, de alguma maneira, alterados, evidentemente, para melhor. Que coordenações, superintendências e direções mostrem em que, efetivamente, a qualidade humana dos munícipes fora alterada.
Gostaria de saber se as pessoas passaram, por exemplo, a admirar jardins e a preservá-los; da mesma forma, rios bem cuidados e repletos de vida passaram a ser importantes? A solidariedade já é um valor societário para a solução de problemas e que trespassam o cotidiano das cidades? A qualidade do ar passou a ser patrimônio de interesse comum? O silêncio, essa exigência fundamental para qualquer instituição da contemporaneidade, tornou-se um valor da comunidade?
Que tolice! Pode ser… Mas gostaria de ver o que ninguém, ou quase ninguém, viu. Me interessa que pessoas saiam de suas casas para participar de uma audiência pública; se cidadãos passaram a frequentar mais a câmara, a prefeitura, os sindicatos ou os partidos. É decisivo saber se tivemos mais jovens e crianças matriculadas no ano que se encerra; se pessoas que não puderam estudar sequer as primeiras letras estão nas escolas especializadas de alfabetização.
As principais obras são, em definitivo, culturais, emotivas, sensíveis. São elas que alteram o indivíduo, seu mundo particular, a intimidade de sua casa e atinge sua esposa, seus filhos e vizinhos. Não é a estrada, o prédio ou a ponte. De fato, estas obras materiais são muito importantes, mas sem cidadãos portadores de uma sensibilidade profundamente social e coletiva nada do que é comum persiste como conquista social e cidadã.
A obra pública sem o olhar cidadão é feito desalmado; por mais importante que seja, é edificação desprovida de sentimento verdadeiro e que alimenta o melhor dos sentimentos de pertencimento.
O objeto é feito para ativar subjetividades, para tornar o homem melhor do que tem sido, para que seja melhor e para que, enfim, faça dos seus mundos de convivência, locais de ternura e esperança ou o gigantismo da obra, sempre tão bem anunciada, não atingirá o que, de fato, deve atingir, a profundidade do homem contemporâneo.
*Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

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