Novo ano, velhos desafios

Cláudio Tostes*

Claudio Tostes

O ano de 2018 começou e a maioria das pessoas se sentem de espírito renovado para o inicio de uma nova etapa. De fato, é uma nova etapa. Entretanto, ao voltarmos para nosso cotidiano, a realidade antiga tomará conta da rotina e apenas os desafios sazonais e conjunturais darão cores diferentes ao novo ano.

O mundo está surpreso com o Brasil e não se trata da mesma surpresa festiva do início dos anos 2000. Vivemos, com o atraso típico do chamado terceiro mundo, a onda de direita que inundou o primeiro mundo ao longo das últimas três décadas. A confiança dos outros países no Brasil voltou a regredir em consequência do destino politico que o país tomou, depois de todo esforço empreendido para seu desenvolvimento. Na verdade, o mundo está decepcionado com o Brasil.

Mesmo com todas as críticas, que não são poucas, de que são passíveis os governos FHC e Lula, ao longo daqueles 16 anos o Brasil promoveu uma relativa estabilização econômica, menor desigualdade social e, mais importante, pujança. O problema do Brasil, contudo, foi que durante esse período não perdeu força uma expressão política retrógrada, destrutiva, maculada, mas com uma estranha representatividade na sociedade brasileira: o (P)MDB.

É um contrassenso a sociedade brasileira ter se desenvolvido tanto e, mesmo assim, ainda eleger as figuras desse partido, ainda hoje ligado a práticas políticas do fim do século XIX em nosso país. O (P)MDB não tem projeto político definido para o Brasil, não toma por base nenhum tipo de ideologia, não representa politicamente nenhuma parcela da nossa sociedade. A finalidade do (P)MDB é tão somente deter poder, independente de quem esteja representando sua legenda.

O (P)MDB detém muito poder! Desde o regime de exceção civil-militar, este partido tem uma vantagem sobre os demais: antiguidade; e antiguidade é posto, diria um militar. O (P)MDB não conviveu com o regime militar por acaso. Liderou o período da redemocratização, mesmo cometendo os erros mais estapafúrdios e absurdos daquela década. Capilarizado pelos municípios, estados e no Congresso Nacional, obteve a vitória de oxigenar, mesmo frente a uma nova Constituição Federal, uma máquina política viciada, corroída e com braços empresariais, jurídicos e na intelectualidade.

Não é desprezível que o PSDB nasceu de uma dissidência do (P)MDB, tampouco é desprezível que o primeiro partido de origem popular, o PT, a chegar ao poder central precisou se aliar ao (P)MDB para vencer eleições.  Tais fenômenos, quando analisados, explicam as dificuldades da sociedade brasileira em compreender que uma legenda partidária representa (ou deveria representar) uma ideologia política. É este hiato de representatividade que aduba a aversão dos brasileiros à política, o que redunda em grave problema.

Em 2017, esta força política conquistou seus maiores avanços desde a década de 80. O Brasil involuiu ao Estado de Exceção, os direitos populares regrediram, as empresas brasileiras se tornaram presas fáceis do capital internacional, a Justiça se afastou do Estado Democrático de Direito, as instituições perderam credibilidade e a Constituição Federal se tornou letra morta. O (P)MDB nunca teve um ano de tão bons resultados e o mais grave: com o apoio de parcelas importantes da sociedade brasileira.

Em 2018, o (P)MDB chega a mais um ano eleitoral com maiorias em câmaras municipais, assembleias legislativas estaduais, no Congresso Nacional e mandatos em vários poderes executivos, inclusive a Presidência da República, ainda que para isso tenha dado um golpe de Estado.

Sim, é fundamental reconhecer que houve um golpe de Estado no Brasil. Em que pesem todos os problemas dos governos Dilma e os erros cometidos por ela, é necessário aos brasileiros reconhecer que o processo político que culminou em seu impeachment foi ilegítmo. Várias instituições, inclusive o Senado Federal, já reconheceram que não havia nenhuma irregularidade nas contas que fundamentaram o golpe. O impeachment não é o instrumento para se pressionar um governo que toma decisões erradas. Veremos mais adiante que é a saída é (sempre) a pressão popular.

A eleição presidencial de 2018 será fundamental para os destinos do Brasil. Apesar de um pequeno, mas não desprezível crescimento da extrema direita, as maiores forças políticas de envergadura nacional ainda são o (P)MDB, o PT e o PSDB, nesta ordem. Todavia, a sociedade não está muito interessada na vida política, o que pode se tornar o maior erro da sociedade brasileira desde a chegada de a Primeira Missa.

Para os incautos, pode parecer que não há muita diferença entre os três partidos, mas há. O PSDB se difere do (P)MDB por ter um projeto político claro, bem definido. O PSDB tem o objetivo de tornar o Estado Mínimo; fortalecer a presença do capital internacional na economia brasileira, mesmo que isso represente o detrimento do capital nacional; acabar com os direitos trabalhistas em todos os aspectos; zerar as reservas de capital brasileiras e tornar a economia do país totalmente dependente, novamente, dos bancos financeiros mundiais. Este não é um projeto político novo. O PSDB já implementou uma boa parte desse projeto durante os governos FHC e só não o implementou integralmente porque naquela década o PT era uma força política no Congresso capaz de deter subjugo do Brasil ao capital internacional.

O PT, por sua vez, governou o Brasil por quase 13 anos e foi o partido mais criticado por seus erros: a aliança com o (P)MDB, a prática do Mensalão e a inabilidade de Dilma para fazer vista grossa para a corrupção (por mais estranho que pareça, este foi seu erro, no fim das contas!). Para o bem ou para o mal, não são erros pequenos, se analisarmos todo o contexto, como por exemplo, o papel do Congresso Nacional e da Grande Imprensa na pressão para que Dilma parecesse um fracasso aos olhos do cidadão comum.

Com efeito, Lula é a maior liderança política no Brasil. O espantoso projeto político internacional, de que o (P)MDB é apenas uma marionete, que reúne ferozes empresas internacionais, como a Chevron, a Grande Imprensa brasileira, nosso judiciário, boa parte de nosso Congresso, além do obediente capital nacional, tem como meta em 2018 inviabilizar a eleição de Lula ou torná-la vazia de poder. Por meio de uma teia complexa, faltas de provas parecem conduzir Lula à condenação ainda este mês e, tornado-o um “ficha suja”, ele não poderá ser candidato.

Fatores externos, no entanto, começam a entrar em cena. A inesperada opinião pública internacional pode entrar em cena, já que a opinião pública brasileira não consegue gritar independência aos veículos de comunicação. Lula pode não ser condenado porque a pressão mundial ao seu favor pode crescer. Para o projeto político internacional, que logra êxito em outras economias do terceiro mundo, a solução pode ser implementar o parlamentarismo agora. No parlamentarismo, Lula será apenas uma figura política representativa sem poder interno. Dado o parlamento dominado pelo (P)MDB, os retrocessos populares continuarão a ser implementados e agora com a força efetiva do PSDB.

A solução parece improvável. A pressão popular adormece dócil nos braços da Grande Imprensa, quartel general do golpe e ator fundamental do projeto político internacional que subjuga o Brasil. A pressão popular resolveria todos os problemas, desde neutralizar a força macabra do (P)MDB, até forçar Lula a governar integralmente para o povo, sem contar que desvelaria o verdadeiro PSDB para o Brasil inteiro.

A pressão popular não tem pressão suficiente. A ano é novo, mas os velhos desafios parecem apenas mais um roteiro sujo de novela das oito, que passa às nove. Enquanto isso, a maior riqueza já encontrada no Brasil com o dinheiro do contribuinte, o petróleo, enche os cofres dos estrangeiros e de seus comparsas brasileiros.

*Cláudio Tostes é o jornalista responsável pelo Notícia Carioca

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