Uma festa apesar da Globo!

Ângelo Cavalcante*
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Em dever filial; vim passar as festas de final-de-ano com meus pais. É sempre encontro alegre, festivo, cheio de emoções, declarações e é claro, algumas rusgas porque é de lei ou não é família. Na verdade, é uma catarse.
Muitas crianças, cunhadas vaidosas, aquele parente “coxa”; outro meio desligado do mundo; outro que conta vantagens sobre si mesmo… Enfim, é um almanaque afetivo-familiar. O segredo é aceitar e tentar (ao menos, tentar!) levar tudo na esportiva.
Ficamos por ali, bebericando cervejas, tocando violão e falando de política; o pessoal mais à direita, meio desconfiado; a turma mais “vermelha”, moendo, com justa razão, Temer e sua Papuda ministerial.
Olhei para meu pai… Homem de 78 anos; já meio cansado pelas durezas da vida; passos lentos e sempre atento aos assuntos. Por volta de vinte horas percebi que suavemente se erguia para sair da roda de conversa. “Vai para onde, pai?”, perguntei; “Vou ver o Jornal!”, respondeu-me de pronto.
Me pus a pensar que o “ver o jornal” dele é ver o Jornal Nacional da TV Globo. Ele não está indo assistir a qualquer outro noticiário de TV. Para ele, o “jornal” são os telejornais da TV Globo e… Ponto final!
Emendou dizendo que “se não vê o jornal é como se tivesse faltando algo”. Pois é… Acontece que este é hábito que se processa a dez, vinte, trinta, quarenta anos. Por anos a fio, meu pai é espectador disciplinado e quase religioso do principal periódico da televisão brasileira ao ponto de tal exercício se tornar uma obrigação cotidiana, rotineira.
Disse para ele: “Mas meu pai, diferentemente do que o senhor pensa, se informar é justamente não ver o Jornal Nacional; aliás, é não ver nada da Rede Globo!”. Ele, como sempre, não me deu a menor confiança!
O trágico dessa experiência é que esse hábito já está no DNA cultural do meu pai; deformou sua cultura original advinda dos sertões do Brasil; este hábito, nada ingênuo, pueril ou prosaico, é fantástica operação intelectual, política e cultural e que é parte viva e ativa nos hábitos e costumes do povo brasileiro.
É da sua natureza, deformar valores, entorpecer o sentido político do povo; transferir crenças e certezas, percepções, sentidos e juízos; converter a complexidade dos processos societários e que dão forma e unidade para o real em sínteses imagéticas e hipnóticas pedagogicamente lançadas como se fossem pílulas pequenas a serem engolidas com facilidade, sem repulsa ou retroação.
Não somos nós que a assistimos; ao contrário, é ela que nos assiste. Mesmo sem pedirmos nos dá assistência e manutenção para dilemas sociais, políticos e econômicos. Formata opiniões, compreensões e injeta continuamente sua estética, comunicação e simbolismo sutil e eficazmente nos nossos fluxos neurais e que determina a carne viva do nosso dia-a-dia.
Mas como é possível? Um velho homem com oito filhos, dezenas de netos; em ambiente harmonioso, com piadas, violão, canções e justamente, na hora do tal do Jornal Nacional, ele, como se fora um autômato, um robô; rompe com uma interação linda e sincera; e se ergue impassível para “se informar”, para ver o Bonner falar do nosso país.
Não é cocaína; é coisa pior, viciante pra valer; é droga forte; pesada; coisa violenta mesmo! Uma impostura que rasga convivências, sociabilidades e afetos. A cada dia que passa tenho mais pavor da TV Globo. Agora e de vez, levaram meu pai.
*Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

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