Os carrinhos de rolimã estão de volta

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Era preciso alguma habilidade para fazer um carrinho de madeira com rodas de rolimã, mas a experiência era garantia de uma emoção impagável. Depois, era necessário encontrar uma ladeira em que o carrinho pudesse descer com velocidade e juntar alguns amigos ávidos por compartilhar as mesmas emoções. Pronto, a vida da criançada da rua estava selada pela amizade eterna e por experiências incomparáveis que seriam contadas e recontadas, com entusiasmo, nas rodas de conversa durante toda a vida.

A brincadeira rendeu amizades resilientes ao longo de décadas, mas nos anos 80 um local conhecido como Bilhódromo, em Sulacap, Zona Oeste do Rio de Janeiro, marcou época. “Foi muito famoso, ia muita gente. Só que tomou uma proporção tão grande que vinha gente de fora, muitos carros. Então, a polícia acabou com o Bilhódromo porque foi muito grande a proporção que tomou”, lembra Cristiano Jóia, um aficionado por carros antigos e por carrinhos de rolimã de 40 anos de idade que frequentava o Bilhódromo durante sua adolescência.

Ao lado do amigo André Mothé, que também frequentava o Bilhódromo, Cristiano quer reviver as emoções das pistas em declive. “A gente procurou vários lugares que tivessem uma ladeira, que não tivesse movimento de carro nem muita casa em volta, porque tem gente que não gosta, né, e que não tivesse quebra-molas, porque a maioria das ladeiras hoje têm quebra-molas. A gente conseguiu, não é uma ladeira muito grande, mas ela é bem legal. São terrenos [vazios] de um lado e do outro, então é bem tranquilo”, revelou Jóia. Os amigos conhecem bem os critérios para encontrar bons locais. “Tem que ter um acesso bom, porque se for um acesso ruim a galera acaba não indo”, avalia Cristiano.

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Mothé está preparando um novo carrinho, mas no mesmo estilo rústico de antigamente, com madeira reaproveitada e rolimãs usados. Cristiano Jóia resolveu inovar. “Hoje em dia a gente tem mais recurso. Antigamente não. Antigamente, a gente catava madeira na obra, na rua, no lixo e fazia. Hoje não. Eu comprei um compensadinho, eu pintei. Arrumei caibro para fazer o braço das rodas e usei rolimã e parafuso. Botei também um puxadorzinho para segurar. O freio é o pé. O rolimã eu comprei usado, na feira que vende bagulho ”, diz Cristiano revelando seus segredos para a próxima corrida, misturando nostalgia e inovação. “Eu fiz um igualzinho para minha filha. Eu tenho uma filha de um ano e eu fiz um pequenininho para ela”, conta o papai deixando transparecer agora o orgulho por sua maior preciosidade.

A segurança é uma questão importante. “A gente está falando para o pessoal que vai andar para botar um capacete igual de patins ou de bicicleta, tênis e cotoveleira. A gente vai tentar arrumar uns para a galera que não levar, para a gente emprestar”, conta Jóia. Por enquanto, não há nenhum médico, nenhum enfermeiro para prestar atendimento em caso de emergência. Cristiano considera que o evento ainda tem caráter muito amador para contar com uma estrutura dessa natureza. Essa infraestrutura demanda muito dinheiro, na avaliação dele.

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Semana passada, Jóia testou o carrinho e a própria ladeira, mas a chuva atrapalhou os treinos. “Há muitos anos que eu não andava. Voltei a andar agora”, assume com empolgação. Jóia e Mothé criaram uma página no Facebook para reunir amantes do esporte e organizar uma brincadeira no dia 21 de janeiro, domingo, em Jacarepaguá. “Assim que entra no Colônia, a primeira ruazinha à esquerda”, avisa. Como é o primeiro evento, eles não têm a dimensão de quantas pessoas estarão presentes. “As pessoas falam no Face, dizem que estão montando os carrinhos, mas a gente não tem noção, não sabe como vai ser. Porque de repente, a gente fala que não vai vir ninguém, que vai ter pouquinho carrinho, o que já aconteceu nesses eventos de carros antigos que a gente faz; chega lá o negócio toma uma proporção bem grande. E pode ser o contrário também. Então, a gente quer fazer esse primeiro de experiência. Daí, a gente dá a sequência nos outros”, pondera Cristiano sobre o eventual sucesso do evento.

A administração do Hospital Psiquiátrico Colônia Juliano Moreira foi contatada, garante Cristiano. Eles ainda vão levar a ideia para apreciação, mas já avaliam que não se trata de um evento que precisa de legalização. “Não vai precisar de fechamento de rua, não vai precisar de apoio, por exemplo, de CET-Rio, de Guarda Municipal, não precisa disso”, diz ele. “Se tomar uma proporção muito grande, aí eu acho que a gente tem que se organizar, se estruturar de alguma maneira”, pondera o aventureiro com alguma ponta de esperança.

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A dupla sonha com o crescimento da ideia, mas o pequeno projeto tem princípios fortes. “Meu sonho é que essa juventude saiba que existe um mundo fora do computador, fora do videogame, fora do celular. A gente tentar vivenciar um pouquinho do que a gente teve na infância e que essa juventude está perdendo. Eu tenho uma filha de um ano e oito meses, o André tem uma filha de quatro anos e a gente tenta brincar de pipa, não deixar que o foco seja só celular. Ajudar essa juventude a ver um pouquinho além dessa tecnologia toda”, conta Cristiano Jóia. Eles esperam que seja um avento família e que as pessoas possam se divertir como antigamente. Pé na tábua!

Serviço:

Carrinhos de Rolimã

Dia 21 de janeiro de 2018

Hora: 9h

Local: Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no final da Estrada Rio Grande

Página no Facebook: https://www.facebook.com/Loucos-Do-Rolim%C3%A3-1926265754368560/

Jornalista Cláudio Tostes

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