Feituras do poder

Ângelo Cavalcante*

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Não brinque com o poder! Ele está aqui, aí… Em todo o lugar! Se expressa na arquitetura, na espacialidade, nos territórios da cidade, nos fluxos das pessoas em seus ‘vai-e-vens’ sem-fim. Está nas relações, nas relações de produção, na produção, nas trocas e intercâmbios econômicos. Está nas tecnologias e em suas vaidades. Na alienação gerada, na indiferença propositada, no descaso historicamente construído e assumido. Está na mercadoria produzida, naquela que ainda não fora produzida. No desejo de consumo, no consumo realizado ou não realizado.

O poder? Não está apenas em governos e em seus clássicos e costumeiros aparatos de coerção. Está na totalidade de tudo o que você vê e do que não vê; por sinal, está, sobretudo, naquilo que ainda não identificamos. Por isso saber é tão importante! O poder, este ente universal, tem e não tem donos. Reside em grupos, coletivos e equipes. Em indivíduos e nas formas do ser. Está presente nas comunicações, nas expressões e nas relações que estabelecemos com os ordenamentos sociais, políticos e econômicos. Não é qualquer coisa… É algo de grande, fundamental e decisiva importância.

Não tem controle porque jamais teve e, de verdade, jamais terá porque é força trans-humana que singra o tempo, valores e culturas; formando, deformando, fazendo e desfazendo povos e civilizações. Dá forma para ideias, falsas ou verdadeiras; para representações, percepções e sensibilidades. O poder é de certo modo, energia que mesmo contínua e instável carece de alguma estabilidade para se realizar, se replicar, se difundir.

Na política, mesmo na trágica politica brasileira, está em discursos, em indivíduos e nas influências que geram; está no humor supostamente inocente, despretensioso e “distante dos interesses de classe”. É sutil ou escancarado!

É preciso admitir que não há arte sem algum tipo de afinidade ou identidade com alguma sorte de poder; não há poesia, música, escultura ou expressão que não faça menção direta, aberta ou velada para alguma natureza de poder.

O abstrato estabelece interação, sensibilidade, afeto e comunicação notadamente nova com o mundo e seus conteúdos, logo… Flana de ponta a ponta com as muitas nuanças que determinam o poder.

É do poder, do seu excesso ou de seus limites, que surgem crises, conflitos e guerras. A atual crise brasileira, por exemplo, é o desmantelamento do poder tal qual conhecíamos e que inevitavelmente, dá lugar para uma forma nova de exercício de poder com base em perspectivas explicitamente privadas e particularizadas. É o brado global das autocracias ecoando por esta terra.

A saída é refundar esse mesmo poder! O termo “refundar” aqui utilizado é mesmo “tomá-lo” para dar-lhe sentido novo, social e profundo. O que evita golpe não é a ‘democracia pela democracia’, mas seu exercício para os mais profundos da vida social e cotidiana de sorte que esse mesmo poder democrático, radicalmente democrático, seja meio e fim para a realização de uma sociedade distinta e superior. Ao fim, democracia pra valer é radicalmente profunda ou não sobrevive!

Sem homens reais que exerçam ou se submetam não pode haver o poder como o conhecemos. É preciso que “novos atores entrem em cena” como nos sugere o clássico livro de Eder Sader. Desta feita, seria muito bom se mulheres, negros e negras, a juventude, a comunidade LGBT, desempregados, moradores de rua, trabalhadores rurais e indígenas se unissem para a tomada deste mesmo poder para, em seguida, lhe garantir novo batismo, nascimento e horizonte. Não é só uma possibilidade; mais que isso, é exigência histórica para um Brasil que quer viver.

*Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

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