Hermana Venezuela!

Ângelo Cavalcante*

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É muito triste ter que contar para um filho, para um sobrinho ou para alunos em uma aula de economia latino-americana a envolver, é claro, dependência e periferia o papel lamentável e absolutamente vergonhoso que o Brasil tem desempenhado na conformação da mais deletéria geopolítica para o Cone Sul desde a infame Guerra do Paraguai (1864-1870).

O império do norte sob o comando do caricato Donald Trump bate a mão na mesa, ergue seu “big stick” de prisões, torturas e exílios e que bem conhecemos por estas terras tupiniquins e afirma com todas as letras que não admitirá qualquer projeto efetivamente nacional no sub-continente; nada que envolva autonomia, soberania ou formas distintas de integração no espinhoso quadro das economias internacionais.

E a reação vem com força ou não; na medida ou fora de propósito, tanto faz… Depende muito do nível da organização política da sociedade em questão e de seus níveis de resistência. Para o caso brasileiro, bastaram espionagens, um juiz provinciano, uma presidente desamparada e uma mídia mercantil e viciada para um cataclismo social e político, ainda não chegado a termo, desabar sobre nós.

Jamais fomos tão alinhados aos interesses norte-americanos; nunca o Brasil se tornou tão miseravelmente baixo e caudatário dos interesses de um país cuja “pax global” é integralmente assentada em guerras, matanças e morticínios de toda ordem e natureza.

A mediocridade abjeta de Temer tem reflexos objetivos e concretos na qualidade de nossas relações internacionais e que, conforme atestamos, desconsidera plenamente as especificidades das demais nacionalidades latino-americanas. Imperialismo puro!

O caso da Venezuela é emblemático! O governo de Nicolás Maduro tem enredado todos os esforços para harmonizar o país; o fundamental da estrategia bolivariana é que o governo identificou que estrategicamente é necessário o mínimo de unidade mesmo com a oposição para que projetos de importância vital para o país se realizem. A nova Constituição venezuelana, empreendimento, por sinal, em curso, é expressão desse esforço nacional. Foram eleitos 545 constituintes, 364 eleitos por territórios e 181 por setores sociais.

O detalhe é que é uma “constituição pela paz” no dizer de Maduro; justamente após a sempre enraivecida direita venezuelana ter assassinado sistematicamente partidários do chavismo com uma crueldade jamais vista no país; após ter perpetrado atentados em repartições públicas e mesmo contra guarnições do exercito nacional e após, enfim, ter sabotado toda a economia do país e mesmo a vida comum dos seus cidadãos.

Esses são os “presos políticos” cantados e decantados pela “mui honrosa” mídia brasileira! Qual nada… Preso politico é outra coisa; se está a tratar de bandidos, assassinos, sabotadores e mercenários contratados a peso de ouro pelas elites do país caribenho para dar fim ao “socialismo do século XXI” do Comandante Hugo Chávez.

Não nos esqueçamos de Henrique Capriles! Este é um dos mais notáveis! Ex-governador da província de Miranda, vem de uma das mais poderosas famílias venezuelanas com vários negócios no ramo industrial, imobiliário e midiático, além de serem proprietários do CINEX (Circuito Nacional de Exibições), o segundo maior grupo de cinemas do país. A família de Capriles é dona ainda do diário “Últimas Notícias”, órgão de maior difusão nacional, além de cadeias de rádios e um canal de televisão. Nos anos oitenta, fora entusiasmado militante do partido de extrema direita “Tradição, Família e Propriedade”.

Em 2000, fundou o partido “Primero Justicia” com o ultraconservador Leopoldo López e se aliou ao “International Republican Institute”, fundação do Partido Republicano dos EUA. O presidente norte-americano no período, era George Bush (o filho!), que disponibilizou amplo apoio ao novo movimento e que fazia oposição a Hugo Chávez, principalmente mediante o NED (National Endowment for Democracy).

De acordo com o New York Times: “A NED surgiu há 20 anos para levar a cabo publicamente o que a CIA fez ocultamente durante décadas. Investe 30 milhões de dólares/ano para financiar partidos políticos, sindicatos, movimentos dissidentes e meios informativos em dezenas de países”.

Capriles participou ativamente do golpe de Estado contra Chávez e organizado pelos Estados Unidos em abril de 2002. Quando prefeito da cidade de Baruta, fez a prisão de numerosos partidários do projeto bolivariano de Hugo Chávez – entre eles Ramón Chacín, ex-Ministro do Interior e Justiça e que fora violentamente agredido pelos fanáticos partidários do golpe em frente às câmeras de televisão.

  Pois bem, no frigir do ovos… É precisamente para essa turma que Temer franquia apoio e instituição. Não é grave problema apenas para os sombrios tempos que correm mas é disposto que afronta toda uma tradição diplomática assentada na promoção da paz, da solidariedade internacional e da integração, sobretudo, e principalmente, com países como a República da Venezuela.

Por fim, tropas brasileiras, desvirtuando-se de seus estatutos e determinações históricas se posicionam belicamente em Pacaraima, na distante Roraima; nos limites com a Venezuela e em claro e ofensivo sinal ao governo e ao povo venezuelano; Venezuela que, recordemos, jamais ameaçou o Brasil em absolutamente nada; que nunca se envolveu em escaramuças fronteiriças com nosso país; que nunca gerou qualquer intimidação ao Brasil. E agora… Lá vai o patético Temer “nos defender” de um país-irmão.

Da mesma forma, outra frente do exercito é aberta para os morros do Rio de Janeiro para, como sempre, perpetrarem toda sorte de abuso contra pobres e desassistidos. Coisa que, por sinal, é absolutamente corriqueiro, afinal… São “pretos ou quase todos pretos”. Dizer o quê?

PS.: É a terceira vez que a governadora de Roraima Suely Campos recebe um presidente. As duas primeiras foi com a presidenta Dilma Roussef para receber unidades residenciais do “Minha Casa, Minha Vida”. Conseguem perceber a diferença? É claro que conseguem!

*Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

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