Intervenção: O consórcio golpista dobrou a aposta

Daniel Samam*

Daniel Saman

Temer foi para o “tudo ou nada” ao apostar todas as fichas em um único movimento: a intervenção federal na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. Na verdade, o “cérebro” e operador desta manobra foi a eminência parda da Nova República, o gato angorá, Moreira Franco.

Desde que conseguiu enterrar a segunda denúncia apresentada pelo Ministério Público (MP) contra si próprio em outubro de 2017, Temer buscou na reforma da Previdência a forma de manter o governo vivo e forte até o período eleitoral. Não conseguiram. Nesse ponto, a greve geral de 28 de abril e nos inúmeros dias nacionais de luta por “nenhum direito a menos” nos garantiu importante vitória na disputa de narrativa na sociedade.

Agora, assumindo que o governo de plantão não tinha votos suficientes para aprovar a reforma da Previdência, Temer percebeu que iria ser jogado no limbo e se tornar mero coadjuvante da corrida eleitoral. A decisão pela intervenção federal na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro tem motivação política e eleitoral. Para o governo, o movimento gera uma mudança de foco no noticiário e reduz o dano por conta do fracasso da reforma da Previdência. Convenhamos, foi uma jogada de xadrez arrojada, com a assinatura de Moreira Franco, do governo de plantão para sair da pauta negativa das reformas antipovo.

O consórcio golpista escolheu o Estado do Rio para ser laboratório de políticas de austeridade de redução do papel do Estado. Para além disso, o Estado do Rio é o ente da federação em estágio mais avançado de degradação institucional, política, econômica e social do país. E os responsáveis não são só os casos de corrupção e a má gestão dos governos Cabral e Pezão. Muito dessa crise tem a Operação Lava Jato como responsável, que destruiu a política de conteúdo local, o setor da construção civil e as indústrias naval e petroquímica, fechando centenas de milhares de postos de trabalho diretos e indiretos.

O debate sobre a reforma da Previdência, que teria a sua hora da verdade nesta semana, deu lugar a uma intervenção federal de natureza militar para cuidar de um tema de forte apelo popular: a segurança pública. Nesse sentido, pode trazer um ganho político no curto prazo, até as eleições, mas também pode ser um prejuízo político sem precedentes para o país no que tange o Estado Democrático de Direito e as garantias fundamentais inscritas na Constituição de 1988.

Obviamente que há sérios riscos nesse movimento de intervenção, como o ônus de qualquer fracasso da intervenção, que cairá no colo das Forças Armadas (FFAA), podendo gerar graves e profundos desgastes institucionais. A reação da instituição a isso é que preocupa. É o imponderável. E a criação de um Ministério da Segurança Pública, retirando a Polícia Federal da Justiça é outra medida perigosa que visa capturar o timão da Lava Jato. Imaginem um Ministério da Segurança Pública tomado pelo corporativismo de uma Polícia Federal que busca cada vez mais autonomia administrativa e financeira.

A ideia é que, num primeiro momento, a intervenção obtenha efeitos paliativos, como a falsa sensação de segurança na classe média, algum nível de desarticulação de facções criminosas e alguma diminuição dos índices de violência até o período eleitoral. Atingindo esses objetivos, a intervenção pode dar novo fôlego a Temer. Reparem no trecho do discurso dele ao decretar a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro:

“Nós, que já resgatamos o progresso no nosso país e retiramos, sabem todos, o País da pior recessão da sua história, nós agora vamos restabelecer a ordem…”

O papel da mídia (leia-se Rede Globo)

Uma manobra dessa envergadura jamais seria colocada em prática sem um acordo prévio com a grande mídia monopolista, em especial, a Rede Globo. O sucesso da intervenção dependerá de como os fatos e as narrativas serão conduzidas. Não se enganem os que acham que a Globo será apenas “chapa branca”. Ela também irá bater muito, principalmente em Temer. Até porque, os interesses eleitorais da Globo são opostos aos do grupo de Moreira e Temer. A partir daí, acho que há dois movimentos sendo gestados:

1. a desconstrução de Bolsonaro, abrindo espaço para que uma pré-candidatura de centro-direita, de orientação conservadora, em nome da lei e da ordem, mas ainda alinhada à agenda do mercado, mas com capacidade de capturar o eleitorado de extrema-direita;

2. E o projeto da Globo, que vai na esteira da criminalização da política, pavimentando caminhos “alternativos” para pré-candidaturas advindas da narrativa do “novo”, “de fora da política”;

E a esquerda nisso tudo?

A pauta da segurança pública foi muito bem escolhida pelo centro-conservador por esta ser uma pauta tradicionalmente hegemonizada pelo discurso conservador, sendo assim um tema difícil para a esquerda. Basta ver o resultado da votação que aprovou o decreto da intervenção: nos restou o isolamento.

Diante desse quadro, entendo que o centro da tática continua sendo a denúncia do agravamento da crise, do aprofundamento do Estado de exceção com a perseguição a Lula, e na defesa de um projeto nacional voltado para o combate das desigualdades seculares a partir de reformas fundamentais no Estado brasileiro e que possibilitem a superação da crise com desenvolvimento, emprego e renda, junto à intransigente defesa da Democracia através da luta pelo direito de Lula ser candidato.

*Daniel Samam é músico, educador e editor do Blog de Canhota. Está Coordenador do Núcleo Celso Furtado (PT-RJ), está membro do Instituto Casa Grande (ICG) e está membro do Coletivo Nacional de Cultura do Partido dos Trabalhadores (PT).

Este artigo foi reproduzido do website Brasil 247.

 

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