Irradiando magia

Ângelo Cavalcante*

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A relativização nociva, sub-politizada e muito mal-intencionada acerca da execução da vereadora Marielle Franco já é parte da operação e que pretende se conformar em estratégia política para os fins eleitorais deste já muito atribulado ano. As razões são óbvias! Marielle não era uma burocrata, uma cumpridora convencional de ritos e rotinas. Seu corpo, sua estética, o vernáculo que utilizava e sua carga simbólica contava muito bem de si.

Está evidentemente, se tornando um ícone. Um expoente notável e irremovível da causa negra e não poderia ser diferente! E se há algo que a direita proto-fascista, neocolonial e neoconservadora do Brasil odeia; mas odeia com todas as forças do seu ser são os símbolos da esquerda.

Mas reconheço, no entanto, e com certa felicidade que o gostoso da nossa esquerda é que ela está, digamos, se tropicalizando! A causa negra é historicamente da esquerda, aliás, seria muito estranho que fazendeiros e latifundiários do Pará ou de Goiás levantassem bandeiras e reivindicações dos negros; da mesma forma, as questões das mulheres são historicamente do campo da esquerda; os enfrentamentos da ampla comunidade LGBT igualmente, tiveram guarida e desde sempre, na esquerda.

Marielle era um combo icônico! E são poucos ou muito poucos os políticos do Brasil com tais características! Vejam: mulher, negra, gay, favelada, mãe solteira, militante dos direitos humanos, da esquerda socialista, estudiosa da segurança pública, professora e o pior, bem pior… Uma intelectual preta.

Conhecem um político/política com tantas interfaces sociais? Com tantas frentes identitárias? Marielle era um fantástico e vivo mosaico cultural e político. Observem que vou, ao menos tento, decifrar a contra-informação, o contra-simbolismo e que corre frouxo nas redes sociais contra Mari!

E para lançar o xeque-mate, é preciso que se diga que a vereadora jamais defendeu qualquer tipo de violência contra trabalhadores-policiais! Nunca e em momento algum de sua caminhada!

A tática da direita está dada e é desconstruir Marielle! É achar que essa liderança absolutamente distinta e original era só mais uma na multidão; afinal, “tanta gente morre todos os dias no país e…”. Potoca e confusão!

Ninguém em sã consciência defende a morte de quem quer que seja; isso não faz o menor sentido. A dor por sua morte é pelo “diamante raro” e que representava; que seguia no tênue limite entre a denuncia e o cuidado social com todos os trabalhadores, inclusive os da segurança pública; na preservação da vida de negros e marginalizados na delicada atenção de evitar revanchismos e que inexoravelmente descambariam em mais hostilidades e guerras; no questionamento aberto e democrático acerca do modelo de Estado presente e visivelmente seletivo no extermínio da juventude negra mas com a leveza de não descambar em discursos magoados e lamurientos.

Conseguem entender o sofisticado dessa lógica político-discursiva? Dá pra imaginar a construção conceitual a envolver essa fina elaboração? Passa pela cabeça de vocês uma mulher com o histórico de Marielle e executando esse balé intelectual, argumentativo e político?

Marielle não deveria estar limpando alguma cobertura bacana na Zona Sul do Rio? Não deveria estar negociando seu corpo em alguma parte da zona portuária da cidade? Não tinha de estar em algum boteco “copo sujo” lavando pratos e fritando iscas de peixes para bêbados e solitários?

Ocorre, prestem atenção, que essa mulher é ponto fora da curva, uma exceção, uma disfunção do sistema neoescravista do Brasil e sua morte já é gigantesco prejuízo político para toda a esquerda brasileira.

Essa é a sua grandeza, o seu tamanho político, sua envergadura! E é por isso que Mariella já é problema para a direita. A esse respeito, vi que uma desembargadora “não sei quem” contou em tonalidades raivosas que a vereadora tinha relações com uma muito influente facção criminosa do Rio; mas não me diga isso…  Querem saber? Nem me espanto mais com esse judiciário e sua gente do além-Marte! Essa casta “tipo A” e que diz que mora no Brasil.

Digam-me uma coisa, quem de nós não tem relação direta ou indireta com o já continental crime organizado brasileiro? Que empresa, prefeitura, governo estadual ou federal não tem de mediar, de uma forma ou de outra, com o muito elaborado e complexo crime organizado?

É como respirar, comer ou dormir! Ninguém escapa do poder, do laço, das influências e determinações do crime organizado, inclusive, presente no sistema bancário global/local, em máfias de transporte público, nos esquemas de impostos, nos financiamentos eleitorais e nos mercados ilegais de itens eletrônicos; está em todas as estruturas do Estado e nadando de braçadas nas amplas e turvas paragens do judiciário brasileiro.

Que a direita cuide de azeitar seu discurso de medo e ódio porque um espectro ronda os pleitos de 2018; tem asas largas, sopra frio, ecoa um grito gutural e tem um nome muito perigoso… Se chama Marielle e a história está apenas começando.

Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

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